Nome:
Local: Niterói, Brazil

terça-feira, setembro 21, 2004

Entre mouros e lavradores

Numa cidade gótica a gente sente as aproximações pelos ecos. Viana é bastante acolhedora e a vinda pra cá é uma leveza só: passamos pelos vinhedos e esta é a melhor época para conhecê-los: estão carregados de uvas. Além disso, é um entra e sai de portugueses vindos dessas quintas do interior (rostos cheios de manchas vermelhas, mãos grossas e olhos bem marcados) que só vendo. Passei por Barcelos e cheguei aqui logo pela manhã, deixando as malas no albergue para partir lá pro alto de Santa Luzia. Almocei chouriços e rojões com vinho verde da região. Tudo junto foi mais barato do que um único prato nos restaurantes dos arredores da praça de Viana.

Antes de chegar no cume do "escadório", uma observação sobre os albergues: são todos ótimos, limpos, atendimento bacana, direto, simpático. Este de Viana do Castelo tem uma varandinha no quarto de frente pro rio Lima e uma praia logo ao lado. Raul, a marina também é em bem frente. Esta cidade é pequena e resolvi pedir informação para tudo, só pra ver como se sairiam os vianenses. É impressionante: entrei numa farmácia e perguntei como poderia ir lá pro alto do monte. O farmacêutico saiu de trás do balcão, saiu da farmácia, caminhou comigo até a Praça da República, botou um pé num dos degraus do chafariz da praça, segurou meu braço e apontou o caminho. Um outro, cuja demanda foi feita dentro de um café, fez o mesmo: saiu comigo pelas ruas até encontrarmos um lugar onde pudéssemos ver a Basílica lá no alto. Parece que o povo aqui não tem pressa nem reservas. E nas ruas já se ouve o espanhol. Na volta do cume também houve uma cena curiosa: um senhor saiu do seu antiquário galego e gritou pra mim: "Boa tarde, moça!". Claro, me detive prum dedo de prosa. Digamos que o senhor animou-se um pouco com a nossa super-excitante conversa, caracterizada por perguntas e informações, e logo arrumei um afazeire pra me desvencilhar de suas unhas negras de graxa e convites para um café.

Apesar do rio, a cidade aqui já é mais árida. Chama-se a região de Alto Minho, e há muitas casas medievais pequeninas, arcos góticos e não por acaso encontrei aqui a Casa do Cunha, filho de um defensor de.... PERNAMBUCO !!! E dos Lunas, família de um amigo querido e especial lá de Recife. Êta mundo! O sol que estoura no branco das casas e no ocre das pedras é um belo fundo pra essas almas que cruzam vielas e arcos vestidas de preto. Não há quase árvores e já não ouço mais as gaivotas e nem sinto a umidade das casas tortas e escuras do Douro.

Mas, prosseguindo, finalmente peguei um autocarro e subi finalmente para Santa Luzia. Atrás da Basílica há um sítio arqueológico chamado Citânia de Santa Luzia. Estavam fazendo escavações lá e, óbvio, fui ver como se organizavam espacialmente os moradores duma cidade romana de I antes de Cristo. As casas eram redondas, podemos dizer que do tamanho de uma grande jacuzzi, e ao redor de um grupo destas haviam muros dentro dos quais ficavam as quadras. Andei ali pensando como seria o semblante daqueles homens: rudes? abestalhados? alegres? desconfiados? gentis? não sei...tentei mudar o meu pra me sentir antiga andando sozinha por aquelas pedras. Outro dia descobri minha verdadeira idade: 1847 ou 1848 anos, não me lembro bem, já faz muito tempo.

Na volta, desci pelo escadório - e haja joelho! O visual é bem bonito, lembra a descida do Parque da Cidade. E cheio de cruzes no caminho. Viana já é um dos caminhos de Santiago de Compostela. No final do tal "escadório pra caralho", há uma inscrição na pedra que diz: "Meu Deus, ajudai-me a subir". Bingo! Mais uma dica pra desvendar a alma galega. Não importa o tipo nem o tamanho do sofrimento, desde que se evoque Deus a portugália guenta o tranco! Lá em Coimbra meu mestre me deu uma breve canja de fado e eu pude gravar a dor da Amália que baixou nele.

Falando em Coimbra, só mais um adendo: a biblioteca joanina, da universidade, guarda um livro de ouro!!! Pessoal, vocês sabem o que isso simboliza? Se não sabem, podem ao menos imaginar. Livro de ouro só um lê. É o símbolo mais emblemático do conhecimento acadêmico. Não à toa, em Coimbra todas as pixações de rua referem-se à vida intelecutal que há encerrada nesses muros: "não há vida inteligente na universidade", e no pedestal da estátua de Dom Diniz, fundador da univ. de Coimbra, um dizer: "é proibido pensar". Ótimo!

Já no Porto, as pixações dizem: "a polícia é um pesadelo" e "obedecer é morrer". Gosto realmente do Porto!

Mas avante nosotros! Acho que amanhã vou pegar o trem pra Vigo, saltar em Redondelas e tomar outro pra Santiago de Compostela. Lá vai ser meu último pouso antes de voltar pra Lisboa, com parada no Porto pra pegar o vinho da tchurma. Ainda não cheguei nem à metade dos meus tostões e, portanto, posso passar pelo menos uma noite por ali.

No mais, minha gente, caminhos não há: os pés na grama é que os inventarão!
até breve,
beijos
soraya

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

sulita, bianca parou hoje ,eu na janela, perguntou por v.c. e disse que pifou o computer dela,mas ia pegar o lap do pai para escrebeire pra ti; ah ela está sem empregada !!! louca pra saber das novas.desejo muita sorte ,segurança e que vá àFATIMA, SOLOSANTO. MÃEdo ceu te protege v.c. ,15.08.:chegou no SEU dia maior:não perca please, b.b. estamos sentindo PORTUGAL,e poderás editarr um livro, escrebes baim voz geral!!saudades liga prá marcar voo com dudu: queremos v.c. recebi cartoes.gostei ouvi-la ligue .

7:53 PM  
Anonymous Anônimo said...

Soraya, em Santa Luzia só o cume interessa!
Um amigo meu morreu de vinho branco. Ele foi atravessar a rua e vinha um carro vermelho. Ele conseguiu desviar, mas atrás vinho branco... e pegou ele. ha ha ha!
Quando voltaires terás uma recepciones legal!!
Um beijo e aproveite ao máximo seus euros aí!
Lynyrd Skynyrd

11:23 PM  
Blogger ipaco said...

Querida Sô,

Só agora li os relatos de suas aventuras na terra lusa. Estive fora do ar nos últimos dias atacado por uma bronquite alérgica, que começou dois dias depois de entrar de férias... sugestivo isso, não? Então passei os dias in bed, ouvindo tristes canções do Brasil e lendo, entre um acesso de tosse e outro, João Guimarães, Geertz e Eco (não necessariamente nessa ordem). Devia ter pego as malas e partido com você. Tenho certeza que assim não adoeceria. Mas tudo bem. Há uma certa alegria em ficar na cidade à toa e sem a culpa dos ociosos. Enquanto isso, recebi a revista Chalopa dos nossos poetas de Recife, com uma nota sobre nossa passegem pelo mercado Boa Vista. Sob o título geral "Os sulistas já chegaram", diz a nota: "Grata surpresa no mês de junho. Em visita à cidade para Congresso de Antropologia, estiveram conosno, no mercado Boa Vista, ou doutorandos cariocas Soraya Simões, Katty (uma francesinha abrasileiradamente portuguesa) e Paulo Thiago de Melo (sobrinho do 'poeta da paz' Thiago de Mello e colunista de O Globo). Vieram, viram e levaram uma boa impressão da cultura, apesar do pouco tempo. Com a palavra o jornalista Paulo Thiago: 'agora entendo porque o Recife é, atualmente, uma referência cultural para o país'".

Viu só? Não se pode conversar com jornalistas impunemente. Tudo o que vc disser poderá ser publicado, contra ou a favor, de você. Mas achei simpática a nota, com o estilo do Brilhante. A revista chegou via correio convencional, enviada pelo Espinhara, que escreveu, ainda sóbrio, uma bela carta de próprio punho. Disse ele que enviou o mesmo material para o seu endereço (só não sei qual, se o antigo ou o atual). Ele também me mandou o livro autografado de um poeta chamado Marcos D'Morais, assim mesmo com "d" apostrofeizado. Não tem a força expressiva do Luna, nem a melancolia pessimista do Espinhara, mas o cara tem o seu valor, saca só:

"Fazer poesia e declamar ao nada
Sem viagens colossais, vê-la florada
Neste corpo meu, a tua geografia"

Gosto desse lirismo. Respondi à carta do Espinhara com um ensaio kamikaze sobre o fim do lirismo no Rio e em Sampa para que eles publiquem, se quiserem, na próxima edição da Chaloupa. Há uma versão no blog. Nada genial, mas saiu assim, de primeira. Coisas de quem está de férias, os brônquios irritados e à toa.

Bom, teremos pela frente a Bienal, em Sampa, e aqui na terra do sol, o Rio Cine Festival. Ainda vou tentar pegar uns quatro dias na Ilha Grande, se a grana permitir tal exagero.

É isso, te beijo
pets.

11:30 AM  
Anonymous Anônimo said...

pt, a grana? Dinheiro move o mundo, menos os seres!
Quem tem que permitir algo és túúúú!! Quer dizer, somos nóisis! Entendis?

12:38 AM  

Postar um comentário

<< Home