Ao Norte!
Pessoal,
Amanhã vou seguir viagem. Sinto muito deixar o Porto. Gostaria de conhecer melhor essa cidade, mas a verdade é que já não ando tão livremente por aqui. Hoje estive num alfarrabista (vulgo: sebo) incrível. Ambiente pequeno, silencioso e sonoridade Schoenberg. Fueda! Ali, encontrei uns livros antigos sobre o Douro e um deles, chamado "A minha pátria", trazia pequenos contos sobre cada lugar de Portugal. Sobre o Douro, o autor dizia que a fertilidade e as águas faziam desses homens mais alegres e o calor, mais indolentes. Há algo aqui diferente, como vos disse na última mensagem. Numa outra livraria dessas seculares, encontrei um escritor que comparava Oporto à Catalunha, especialmente à Barcelona, não tanto pela arquitetura, mas pela alma. Ainda assim ele carregava Oporto de mais loas.
Não sei...esse lugar me intrigou. Nesse sentimento vem embutido a atração, mas o vinho do Porto me atrai, não me intriga. O lugar sim. Talvez tenha a ver com essa minha característica de apreciar uma caminhada pelo fio da navalha. Pois aqui também há lugares mais solares.
Hoje, por exemplo, fui pra foz do Douro de bonde (elétrico número 1) e lá entrei num boteco desses típicos de áreas de pesca. Chama-se A Palmeira, e (veja só, Paulinho!) ali bebe-se vinho verde "na pressão", tirado por uma torre dessas de chope (aqui a Sagres é a nossa Brahma). Na verdade, não só ali, mas em vários pontos desse país bebe-se vinho "na pressão". Em Coimbra tambaim. O cara nem cobrou as duas taças que bebi (0,70 cada!!!), mas só os bolinhos de bacalhau (0,60) e a água, tudo no balcão, rodeada de portugueses barrigudos e bigodudos. Só homem, um típico pé sujo tripeiro! O dono, José esqueci o resto, morou em CAXIAS e ontem comeu uma picanha com pagode na casa de um amigo. Essa coisa das migrações dão o maior colorido nos lugares.
Voltando dessa parte da cidade (a mais solar, mais "salitrada"), fui direto pra Vila Nova de Gaia beber uns vinhos e comer alguma coisa. A desvantagem de Gaia é estar de cara pro Porto. Ninguém fala muito dela mas ela é igual à sua vizinha, só que menor. Procurem histórias na internet. Só vos digo que essa mistura de casas medievais onde hoje funcionam associações de velhinhas, adegas, puteiros, livreiros, pensões, ferragens, gráficas e residências coalhadas de varais e mulheres berrantes me atordoa bastante.
SEM CONTAR COM AS GAIVOTAS!!! Sinto a todo o momento que estou sendo coadjuvante d´Os Pássaros, do Hitchcock. Elas têm um grito lancinante, de dia e de noite, aliás durante toda a noite. Agora mesmo, andando da Estação de São Bento pra cá, olhei pro céu e lá estava uma revoada branca contrastando com as estrelas e o negrume da noite. A lua nessas cidades portuguesas ficam na altura dos nossos olhos sobre essas colinas. A cada passo, uma lua, um varal e um grito ecoando ao longe. São elas, as gaivotas. Oporto sem gaivotas deve ser Barcelona. Se bem que Barcelona deve ser menos, muito menos visceral, muito menos intestina. E há moscas, principalmente nas ruas cinzas, de casas tortas, de entradas de gatos, de portas góticas, da olhares furtivos.
Mais tarde - ou quando voltar - dou-lhes informações sobre a telefonia e o sistema de transportes lusitanos. Uma verdadeira loucura. Por exemplo: para se ligar pro Brasil deve-se comprar um cartão específico pro país. Ali você tem um código geral de uns dez algarismos, mais uma senha com uns nove algarismos, e depois se disca o código do país, o da cidade e o da casa. No fim, você ouve que não dá pra completar a ligação. Pedi ajuda pra mais duas pessoas: nada feito. Dinheiro de volta. E pra ligar à cobrar, só de Lisboa. Daqui a operadora diz que em todo Portugal é a mesma coisa: deve-se discar 179, e pagar a ligação. Mas ora: de Lisboa não +e assim! As informações são uma tortura. Começa-se pela negativa. Por exemplo: "Senhor, para ir ao Mal Cozinhado, como faço?". Resposta: "estás vendo aquele monumento ali? Não é por ali..." e assim vai. Lá em Coimbra, o Mello foi fazer um teste comigo e o senhor respondeu: "descendo aquela rua, vais encontraire uma rua. Não entre nela, siga em frente. Lá adiante haverá uma pequenita travessa, onde ao fundo há uma fonte muito bonita, com ferros do Teixeira Lopes, você vai logo ver, ela está iluminada à noite. Não é lá." ORA, POIS!!!!!!!!
E ontem eu perguntei por um telefone público, o cara me disse: "depois do túnel tem um, mas não está funcionando!". ORA POIS!!!!!!!
Preciso desligar. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
minha guelda, não se preocupe. Estou num dos meus lugares. Aliás, acho que me apaixonei pelo ladraozinho. Uma ameaça e um carinho basta pra derreter meu coraçãozinho. Amor bandido, já ouviu falar disso? Tenho a faca e o queijo na mão: em frente à pensão, reune-se a "máfia", como disse a dona do Vulcão. Bizarro.
Viva Oporto !
Besos e à Galiza!
Soraya de Gaia
Amanhã vou seguir viagem. Sinto muito deixar o Porto. Gostaria de conhecer melhor essa cidade, mas a verdade é que já não ando tão livremente por aqui. Hoje estive num alfarrabista (vulgo: sebo) incrível. Ambiente pequeno, silencioso e sonoridade Schoenberg. Fueda! Ali, encontrei uns livros antigos sobre o Douro e um deles, chamado "A minha pátria", trazia pequenos contos sobre cada lugar de Portugal. Sobre o Douro, o autor dizia que a fertilidade e as águas faziam desses homens mais alegres e o calor, mais indolentes. Há algo aqui diferente, como vos disse na última mensagem. Numa outra livraria dessas seculares, encontrei um escritor que comparava Oporto à Catalunha, especialmente à Barcelona, não tanto pela arquitetura, mas pela alma. Ainda assim ele carregava Oporto de mais loas.
Não sei...esse lugar me intrigou. Nesse sentimento vem embutido a atração, mas o vinho do Porto me atrai, não me intriga. O lugar sim. Talvez tenha a ver com essa minha característica de apreciar uma caminhada pelo fio da navalha. Pois aqui também há lugares mais solares.
Hoje, por exemplo, fui pra foz do Douro de bonde (elétrico número 1) e lá entrei num boteco desses típicos de áreas de pesca. Chama-se A Palmeira, e (veja só, Paulinho!) ali bebe-se vinho verde "na pressão", tirado por uma torre dessas de chope (aqui a Sagres é a nossa Brahma). Na verdade, não só ali, mas em vários pontos desse país bebe-se vinho "na pressão". Em Coimbra tambaim. O cara nem cobrou as duas taças que bebi (0,70 cada!!!), mas só os bolinhos de bacalhau (0,60) e a água, tudo no balcão, rodeada de portugueses barrigudos e bigodudos. Só homem, um típico pé sujo tripeiro! O dono, José esqueci o resto, morou em CAXIAS e ontem comeu uma picanha com pagode na casa de um amigo. Essa coisa das migrações dão o maior colorido nos lugares.
Voltando dessa parte da cidade (a mais solar, mais "salitrada"), fui direto pra Vila Nova de Gaia beber uns vinhos e comer alguma coisa. A desvantagem de Gaia é estar de cara pro Porto. Ninguém fala muito dela mas ela é igual à sua vizinha, só que menor. Procurem histórias na internet. Só vos digo que essa mistura de casas medievais onde hoje funcionam associações de velhinhas, adegas, puteiros, livreiros, pensões, ferragens, gráficas e residências coalhadas de varais e mulheres berrantes me atordoa bastante.
SEM CONTAR COM AS GAIVOTAS!!! Sinto a todo o momento que estou sendo coadjuvante d´Os Pássaros, do Hitchcock. Elas têm um grito lancinante, de dia e de noite, aliás durante toda a noite. Agora mesmo, andando da Estação de São Bento pra cá, olhei pro céu e lá estava uma revoada branca contrastando com as estrelas e o negrume da noite. A lua nessas cidades portuguesas ficam na altura dos nossos olhos sobre essas colinas. A cada passo, uma lua, um varal e um grito ecoando ao longe. São elas, as gaivotas. Oporto sem gaivotas deve ser Barcelona. Se bem que Barcelona deve ser menos, muito menos visceral, muito menos intestina. E há moscas, principalmente nas ruas cinzas, de casas tortas, de entradas de gatos, de portas góticas, da olhares furtivos.
Mais tarde - ou quando voltar - dou-lhes informações sobre a telefonia e o sistema de transportes lusitanos. Uma verdadeira loucura. Por exemplo: para se ligar pro Brasil deve-se comprar um cartão específico pro país. Ali você tem um código geral de uns dez algarismos, mais uma senha com uns nove algarismos, e depois se disca o código do país, o da cidade e o da casa. No fim, você ouve que não dá pra completar a ligação. Pedi ajuda pra mais duas pessoas: nada feito. Dinheiro de volta. E pra ligar à cobrar, só de Lisboa. Daqui a operadora diz que em todo Portugal é a mesma coisa: deve-se discar 179, e pagar a ligação. Mas ora: de Lisboa não +e assim! As informações são uma tortura. Começa-se pela negativa. Por exemplo: "Senhor, para ir ao Mal Cozinhado, como faço?". Resposta: "estás vendo aquele monumento ali? Não é por ali..." e assim vai. Lá em Coimbra, o Mello foi fazer um teste comigo e o senhor respondeu: "descendo aquela rua, vais encontraire uma rua. Não entre nela, siga em frente. Lá adiante haverá uma pequenita travessa, onde ao fundo há uma fonte muito bonita, com ferros do Teixeira Lopes, você vai logo ver, ela está iluminada à noite. Não é lá." ORA, POIS!!!!!!!!
E ontem eu perguntei por um telefone público, o cara me disse: "depois do túnel tem um, mas não está funcionando!". ORA POIS!!!!!!!
Preciso desligar. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
minha guelda, não se preocupe. Estou num dos meus lugares. Aliás, acho que me apaixonei pelo ladraozinho. Uma ameaça e um carinho basta pra derreter meu coraçãozinho. Amor bandido, já ouviu falar disso? Tenho a faca e o queijo na mão: em frente à pensão, reune-se a "máfia", como disse a dona do Vulcão. Bizarro.
Viva Oporto !
Besos e à Galiza!
Soraya de Gaia

8 Comments:
Soraya,
Valeu prima... =)
Po to aqui sempre... eu literalmente viajo contigo... no final da sua viagem ja vou estar sabendo tudo de Portugal...dos becos mais obscuros até as principais praças...e louca pra fazer o mesmo...
Beijos
Paty
Soraya,
tente de qualquer telefone (inclusive orelhão), discar 800 800 550. Este nº é da EMBRATEL e vc fala a cobrar.
Valeu? Se der certo, mais um vinho!
DUDU
SORAYA,as andaças estão boas ,o seguro morreu de velho e o vinho conserva as artérias, bebido com elegancia,não ataca os miudos e miolos!!! cuidado com a máfia pois ela é mundial e os mafiosos que aqui ficaram estão na espera do fio da navalha, avez vouz comprí? te amo se cuida o futuro lhe pertence, mamalig,b.b.
Soraya, quem vos escreve é o seu irmão mais próximo, Raul. Eu penso em um dia alugar ou comprar um veleiro aí na Europa e passear pelo Mar Mediterrâneo. Se você visitar alguma marina, já sabe o que fazer né?
Olha, seus dez euros devem ter sido bem "aplicados"! Pense nisso.
Esse fim de semana eu fui a Barbacena e seu padrinho te mandou um beijo grande e disse que um dia vem aqui te visitar. Disse a ele que se demorar muito você é que vai lá visitar ele primeiro.
Conte sempre como andam esses putos aí de Portugal.
Um beijo e me traga um vinho também! hehehe
Oi, Soraya,Andréa(Déda vos escreve). Estou correndo pois aproveito um soninho da Maria Clara para resolver um monte de tarefas caseiras. Mas, quero que saiba que estou adorando ler-te e sempre que posso dou uma passadinha por aqui. Muito gostoso acompanhar-te daqui "do alto deste planalto central". Há, diga ao Raul que a família aqui adoraria dar um passeio no seu futuro Veleiro! Ele tem bom gosto! Velejar é muito bom! Tomar uma gelada apreciando a vista e a maresia também.
Soraya, quero ver todas as fotos!
Grande abraço saudoso,
Andréa, Maria Clara e Fabiano.
Andréia, eu tenho um veleiro aqui em Niterói. Não sei se você conhece, mas é um Microtonner 19 pés. Está convidada a passear comigo. Só peço uma coisa a vocês três: tragam cerveja! hehehe P.S. Vinho do porto tb serve... Quando a Soraya retornar a gente dá umas voltas por aqui.
Raul, adoraríamos fazer este passeio. É só combinar e esperar a pequenina aqui ficar mais fortizinha. Fabiano tem um "Snipe", não é bom para passear com a família e amigos.
Pode deixar que agente leva a cervejinha, vinho do porto fica por conta da Soraya. He he..
Abraço,
Andréa.
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