navegar é preciso

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Local: Niterói, Brazil

quinta-feira, setembro 30, 2004

Rua da Rosa

Meus queridos,
estou aqui no melhor lugar de Lisboa: o Bairro Alto. Como sempre descubro o que há de bom no último dia. No momento vou procurar uma pensao para passar a noite aqui sem precisar pegar o barco pra Amora.

Em Santiago foi a mesma coisa: no último dia descobri o Gato Negro, uma taberna dignissima de entrar no Santiago de Compostela Botequim. "En un ha calle sin nombre, numero que non sabemos hai un vino do Ribeiro que todos nos relambemos. Vino branco, vino tinto de Ribadavia a de ser. O que non ven por aqui e que non sabe beber." Pois foi de lá que parti para o Porto, não sem antes beber o vinho do Manolo Ribeiro, comer chourizo al vino e tudo isso por 2,00. Uma taberna típica, a família atrás do balcão e uma TV PRETO E BRANCO!!! SIM: PRETO E BRANCO, em cima da pia, ao lado dos barris, atrás do balcão. Fantástico mesmo. E do lado de fora, aquelas ruas e paredes e arcos de pedra de Santiago...vocês não fazem idéia como senti sair de lá.

E no Porto acabei descobrindo um boteco onde comi um verdadeiro cozido português. E revi meus queridos comparsas do Vulcão e dormi mais uma noite na espetacular pensão Mondariz - ambiente familiar. Sendo que a minha cama já trabalhou muito na vida: assim que deitei, afundei cerca de meio metro no colchão de molas. E nas madrugadas, cada passo no corredor afundava o piso de madeira de meu chambre noir...

Acabo de sair de uma garrafeira, onde provei trezentos vinhos do Porto de todos os tipos. Tudo grátis. Só pra pagar ao menos uma vez, fui no Instituto do Vinho do Porto, aqui no bairro Alto, e paguei cerca de um e pouco numa taça dum LBV Fonseca. Intendida!

Papito: prepare-se pra pérola que vais ganhar de aniversário. Essa foi no meu cartão independente, e é pruma ocasiao muito, mas muito especial. Experiência como esta não terás tão cedo na vida.

Pessoal, vou nessa entonces porque se não encontrar pensão vou ter que retornar à mansidão de Amora, e hoje quero e ficar por Lisboa. Cada canto e cada bar que descobri andando só...Anotem aí o Pavilhao Chinês, um local pra se beber como nunca vi na vida: todo vermelho, luz amarela, cheio de espelhos e poltronas, muito intimista, pequeno e caríssimo: só vi da porta. Há coisas incríveis nesse local onde tô agora.

Minha caixa de e-mail já tá cheia de mensagens da UFF. QUE MERRRRDD.....!!!

estava!
Beijos, soraya

ps: Guimaraes já ficou lá pra arriba, Andréa. Emburaquei na Espanha e deixei Braga, Guima e Bragança pra outras ocasiões.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Rincón del Viento de eras geológicas

Às compras hoje para levar comigo a alma da Galícia, me deparo com um loja já indicada por um hombre, onde só existem cd´s em oferta. Ensaquei um duplo de Alfredo Kraus, um de música celta do Milladoilo, O Barbeiro de Sevilla pela orquestra da Galícia, España em Música Clássica (com fuerza ao piano) e Negra Sombra, de Victor Pablo com Orquestra da Galícia. Tudo isto a cerca entre 1,90 e 4,90! Um pouco mais à frente eis que me surge una libraria onde havia espuesto un livro llamado Roteiros de Compostela, narrando toda a história galiciana através de seus roteiros mas o que me chamou a atençao (além do preço de 3,00) é que o livro começa em Portugal, passa por Coimbra, Porto, cidadelas do norte de Portugal hasta llegar em Santiago. É, minha gente, ustedes pueden imaginar como estoy me sentindo nessa grande odisséia. De quebra trago comigo também a alma barroca de Calderon de la Barca, por 1€ na mesma livraria. A loja do lado era um mercadito onde pude comprar minha água e "pequeno almoço" de amanha.

Hoje cedo estive em A Coruña, mas algo me dizia que lá nao ia encontrar muitas coisas para balançar meu coraçao. À parte o trajeto do trem, que é belíssimo, com os milharais e os horréos (aquelas pequenas casitas de pedra sobre pedestais, típicas da Galícia para armazenagem do milho) A Coruña tem uma arquitetura que mais parece um híbrido de Copacabana com Estoril: terrível. Hay playas e o Atlântico com o qual me deparei valeu a visita, pois surtiu como um brinde já nostálgico dessa viagem que vem chegando ao seu fim.

Peguei o autobus 5 em frente à Estaçao e fui direto à Torre de Hércules. Para os mais desavisados este é o farol mais antigo do mundo. Seu traço singular estar ainda no mesmo lugar, sobre a mesma cimentaçao e com a mesma funçao que tinha há 2000 anos atrás. Que tal? Tao logo entrei em sua base, me veio uma nota para as "vítimas do Palace II": seus alicerces de dois milênios foram construídos sobre "formigón", ou seja, pedras trabalhadas com um "mortero" de 30% de cal e 70% de areia granítica. Pai, você tem sempre razao. Vou poupar goela quando tu me provocares.

Antes de subir à torre aproveitei a vista do horizonte redondo que se descortinou à minha retina pelo Rincón del Viento, onde caminhei até a beira dos abismos para ver essa imensidao azul. Lá do fundo desse atlântico veio vindo um barquinho, e eu ali, só pegando a brisa fria que entrava pela porta do céu. Senti que o tempo passara quando o barquinho veio trazendo consigo o estardalhaço de centenas de gaivotas. Berravam à espanhola, quer dizer, à galiciana. Lá n´A Coruña vi outra pixaçao que anotei no caderninho:"Nao a educacion espanholista. Ensino educacional galego!". A Galícia no és España, é vero.

Ao descer da torre caminhei até pelo árido e kitsche calçadao até avistar as praias del Orzán e Riazor. Mas bonita mesmo é a pequena playa das Lapas, aos pés da torre, em meio ao despenhadeiro e seus jatobás. Peguei mais à frente o 11 quando soube da hora: eram 15:00 e eu queria me despedir de Santiago. Fui comer um misto quente em frente à estaçao e a dona do café era venezuelana. Victoria seu nome. Disse ter muita saudade da America Latina. Nao gostava da Coruña. Mas de Santiago: "todos se queden a enamorar-se de Santiago". Eu sinto muito mesmo saber que amanha pego o trem para Vigo. Aliás, decidi que nao vou dormir em Vigo, mas sim no Porto, para na quarta feira viajar de volta à Lisboa.

Ontem à noite ainda tive um encontro bem legal: Joglo, um paquistanês que mal falava o inglês e o espanhol e que ainda agora nem sei como conseguimos conversar. Joglo estava vendendo coisas lindas da Índia num galpao, e fiquei tentada numa cortina de voal toda bordada. Sua vizinha de tenda se chamava Amelia, e puxou uma longa conversa comigo, pois morou dez anos em "Floripa" e queria me mandar um postal daqui (???). Seu filho é um apaixonado pela bossa nova e quer voltar pro Brasil tentar a vida como músico, pois já fez inúmeros arranjos para Jobim e cia. Essa vida é uma miríade de coincidências mesmo! Lá n´A coruña hoje, dei de cara com a Playa Santo Amaro, vizinha da Playa da Lapa, à qual se chega pela rua San Carlos, que fica em frente ao Museu Militar, na beira do mar. ora ora....

Mas deixando novamente à coté a sessao nostalgia (yesterday all my troubles seems so far away...), tirei umas fotos do alvorecer no Monte do Gozo e ontem à noite resolvi, tardiamente, explorar mais meu ambiente de dormida. Subindo até o último pavilhao encontrei um policial com o qual tirei algumas dúvidas. Os últimos quatro pavilhoes chamaram minha atençao pois os corredores eram coalhados de botinas nas portas dos quartos. Estes últimos eram destinados aos peregrinos do camiño, que têm o direito de passar uma noite ali gratuitamente. Os pavilhoes debaixo, onde também estou, acolhem os nao peregrinos. Ai pensei: "depois de percorrerem centenas de quilometros os caras ainda tem que subir até fim deste caminho! Ou é para lhes dar maior sossego ou é porque os desgraçados nao pagam nada". Bem que poderia ser as duas coisas ao mesmo tempo, mas acho que a versao capitalista pesou mais nessa decisao. O Monte do Gozo foi construido em 1993 para a visita do Papa, pois tem lá um imenso auditorio ao ar livre para 40 mil pessoas. Sao 800 quartos ao todo (tem um hotel de luxo mais abaixo) e nos pavilhoes cada quarto acolhe até 8 pessoas. Na área comercial há um mini-mercado, uma lavanderia, uma cafeteria, um restaurante (caríssimo e ruim, segundo dizem), internet, bar automatico 24 horas e loja de souvenirs. É um grande complexo para se ganhar dinheiro com a peregrinaçao, mas nao deixa de ser divertido. Agora estou no quarto com duas alemas jovencitas, que ficam num abre e fecha de ziperes a noite toda, cochichando em alemao para nao me acordar e só por ser em alemao me tiram todo o sono. O nome Monte do Gozo é uma alusao à sentimento dos peregrinos que vêm do caminho francês (o mais longo) e que avistam as torres da catedral de Compostela tao logo chegam ali.

Como nao trouxe relógio, nao me sinto cansada pelas "horas nao dormidas", visto que nao sei quantas dormi e quantas "perdi". É tudo uma questao de convençao, uma imitaçao chula do espirito militar. Sem a disciplina pautada pelo signo maior da ideologia do trabalho (o relógio) somos muito mais fortes e intensos do que pensamos ser! E nunca "perco a hora" pois acordo quando os primeiros raios solares ainda frios adentram pelos buraquinhos da esteira branca da minha janela. E haja disposiçao, pois a vida de viajante se resume a viver simplesmente.

Ainda curtindo a brisa do Rincon del Viento, com os cornos pro Atlântico Norte, tive a oportunidade de sentir e de saber que nao importa onde estejamos, a vida vem conosco. A vida é única. A vida é íntima.

Pt, dá um beijao no meu Oc.
Hasta luego, mi pueblo!

soraya


domingo, setembro 26, 2004

FELIZ CUMPLEANOS, MI PAPITO!

Com uma dose extra de Botafumeiro para espantar todos los Charles de tu vida!
Muchos besitos de su hija amada e que te ama,
Soraya

sábado, setembro 25, 2004

Assunçao da Virgen

Mi pueblo, xá no sei más se hablo em castelano o galego. Verdade és que mi estrelita brilha mucho: hoy acordei e vim com los peregrinos de Monte do Gozo no primeiro autobus para cá.
Caminhando pela cidade sem me prender aos mapas, acabei entrando no Mercado da Praza de Abastos, um universo bem galiciano de galinhas, peixes, mariscos, paes gigantescos e muita hortaliça. A luz tava linda e as pessoas sempre muito gentis para tirar minhas dúvidas gastronômicas.

De lá, me dei de novo na Praza da Quintana, lateral da catedral, e resolvi entrar. Eis que me deparo com o tradicionalíssimo ritual do Botafumeiro, quando um turíbulo de prata e ouro de 50 kg desce da abóboda central e é lançado de um lado a outro pelos padres chegando quase a atingir o teto da igreja. Isso tudo depois de, também por acaso, ter entrado numa ruazita que me deixou de cara para San Martin Pinaro, igreja de onde sairam caracterizados de judeus e apóstolos os homens que participariam da procissao da Assuncion de la Virgen até a catedral. Esse verdadeiro teatro sacro medieval é uma oportunidade única de se ver aqui, já que é feito em Exl, lá pra baixo da Espanha, e eu tive a chance de ver com tudo o que tinha direito, entrando sem querer, assim por acaso, no meio da festa toda, ganhando até uma longa tira do palmário de Exl. Os órgaos da catedral de Santigo entraram no meu espírito pelos ouvidos e arrepiaram até os pelinhos dos dedos.

Fechando com chave de ouro, o bispo e todos os seus aceclas sairam justamente onde eu me encontrava, e levei de quebra um aperto de mao do bispo de Santiago de Compostela! E em pleno Ano Santo Compostelano - o que quer dizer que o dia 25 de julho cai num domingo. Me senti o próprio pica-pau.

Estive também num museu que queria conhecer: o Museo das Peregrinaçoes. Fala de todas as peregrinaçoes da face da Terra, desde as católicas como as budistas, taoistas, hindus, judaicas, islâmicas. Lá tinha também uma exposiçao de fotografias em P/B da peregrinaçao de Santiago no Haiti completamente diferente daqui: as pessoas em transe pela posseçao do Loa (ou law) caem num grande lamaçal e lá estao aptos a receber o espirito da Deusa do Amor, e rola muito esfrega debaixo daquela lama toda. Às vezes tento imaginar o que esses brancos devem pensar dalém europa. Será que entendem? Como me disse o Jorge, lá na Feira da Ladra, sua aposta no Brasil é exatamente porque aí ninguém cresceu se achando superior, e eis a "porta" da nossa abertura - vista de maneira positiva.

Mas dediquei a parte da tarde a curtir essa minha sorte visitando o Museu do Pobo Galego, ao lado da igreja e do parque de Sao Domingos de Bonaval. Uma verdadeira aula galiciana. Até compus uma alalá deitada na grama do parque prum descanso rápido, massagem nos pès, vendo ao fundo a torre da catedral e os ecos de "mira, papa!" dos pequenos que estavam por ali. Parque nas europa é coisa séria: uma delicia pública com direito a silêncio pra se ouvir os passarinhos e o vento nas folhas das árvores. é deitar e rolar.

Entre uma reflexao e outra, entre uma emoçao, uma recordaçao, uma alegria e um suspiro, me vi intrigada com uma coisa: por que será que nos restaurantes, nas mesones e nos bares a opçao é sempre "agua ou vino"? Parece que aqui és tudo la misma cosa! Entonces fico com o vino para acompanhar minhas raciones, já que son lo mismo preço! Aliàs, a de hoje foi caldo de mariscos com camaroes, cordeiro e batatas, vinho tinto e a famosíssima tarta de Santiago. Nao, nao estou esbanjando: isso tudo é um "menu do dia". E em cada tienda que viende la tarta tu puedes prová-la e beber um licor GRATIS! Gente, mais um mês aqui nessa vida de degustaciones e nao sei o que seria de mim.

Verdade é que tudo aqui é sensacional, mas fico louca pra escrever pra vocês, pois tem hora que nao ter uma testemunha consigo faz crescer a vontade de contar as coisas. Antes do almoço sentei na escadaria da Praça da Quintana pra ver o visual daquile imenso castelo de areia e comecei a desenhar o que via. Essa prática me aguçou o olhar: sao detalhes que nao acabam mais, e quando a gente fotografa acaba focando em outras coisas. Quer dizer, eu fotografo situaçoes e desenhei detalhes da arquitetura (pero no mucho, claro!). Duas formas de ver. E os cheiros continuam me encantando.

Logo mais âs 22:00 vai ter um espetáculo na Praza do Obradoiro mas no poderei estar acá porque o Monte do Gozo me espera até a ultima saida do 25, que es 22:30. Acho que ainda fico aqui até terça-feira. Depois nao sei se vou até Lugo ou Pontevedra ou retorno à Portugal parando ainda mais uma vez num sítio qualquer. À noite, quando me deito, é que sinto como estou quebrada. Dói tudo, minha gente. E Monte do Gozo é bem interessante: hoje dormi com um cara no quarto e uma mulher que já estava lá. Tudo peregrino, e o mais intrigante é que a maioria tem mais de 40 anos. Tem gente até de 68, muitos franceses e alemas. Vendo esse povo carregando as vierias nas mochilas, os cajados, os pés machucados, sacos de dormir e um puta semblante de alegria me dá vontade de encarar essa viagem de quase 800 km de perrengue. O caminho é o caminho.

É emocionante ver a Porta Santa da escadaria da Praza da Quintana. Um mundo de gente em fila pra abraçar Santiago e tudo o que aqui rola é em torno disso. Há vida cotidiana, claro, mas as pessoas sao tao abertas que penso ser consequência dessa troca toda que envolve esse lugar de peregrinaçao.

Vou indo, minha gente. O bus sai daqui a instantes. Hasta luego.
soraYa sem costela

sexta-feira, setembro 24, 2004

Ei, mira! SANTIAGO-GO de Compostela BUTIQUIM!

Imprecisos estes caminhos, mi pueblo. Estoy em Santiago de Compostela, despues de assistir a la missa na Catedral do santo e de abraçar-lo. Usteds no poderan crer: es lo ano santo compostelano, e ca estoy jo!

Passei a noche de ontem acompanhada de Carlos, em Vila Nova de Cerveira... Carlos, muy guapo, pagou mi jantar e todos meus vinhos, alem de acompanhar-me a mi pousada. E carlos ainda me falou que há 4 meses nao ria como ria aca comigo, e que se sentia muy bien ao meu lado. Bueno, mui bueno, mi pueblo! Más deixei mi Carlito e peguei lo trem das 9:00 rumo à Redondelas de Galicia e de la para Santiago. 1,10 de Cerveira pra Tuy, 1,90 de Tuy pra Redondelas e 6,15 para Santiago. E lo camino és estupendo! Hay vinhas e milhos por todos os lados, e las casitas de milho à beira da estrada nos indicam estarmos em terras estrangeiras. Na fronteira um policia me pediu o passaporte e yo no lo encontraba...mas enfim o tive!

La viagem no podria estar mejor!! E ca em Espanha toda la gente es mui mui simpatica e empreende un esfuerzo mui grande para compreender-me. Nada mal!

Estoy encantada com a Galicia. Aqui tudo TUDO es belo, las calles cheiram bem, las personas son mui belas e elegantes, e os peregrinos hay por todos los lados. Es mucho engraçado vê-los com sus cajados, mochilas e jeito manco de caminar. Todos tem bandagens en los pies. Estoy hospedada no Alto do Monte do Gozo, una especie de Rio Centro de peregrinos, só que más próximo de tudo, embora só possa chegar de autobus e o último sai da cidade velha às 22:30.

Así que cheguei acá, sentei-me no restaurante Franco, na rua do Franco, para comer o trivial por 7,00. Galicia és mais cara. Mas bom: comi um caldo galego de entrada, pollo com batatas, una laranja e una jarra de vinho! tudo por 7,00. O Franco ÉS O NOVA CAPELA DA GALÍCIA. Lo garçon que mi atendeu (a cara do Paiva do Jobi, pt) viu-me chamar-lo, foi à copa e voltou para ouvir-me. Preguntei pelo sal e ele sacou o vidrinho: "Sal?" e me deu um sorriso. Duas senhoras à meu lado (Raymunda e Yolanda), puxaram conversa e eu disse que em meu nombre también hay yn Y, e Yolanda me disse: "los nombres com Y dao um forte peso espiritual à persona". Brigadinha, papitos!

Ainda estoy vesga con esta ciudad. La ciudad vieja é toda feita de arcos, e hay musicos por todos os lados. Hoje gravei violinos, gaitas celtas e até mismo un blues. As lojas sao um estouro, todas pequenitas dentro das lhamadas tiendas que son las portas sob os arcos. És muy bela! procurem na internet. Volto cá para fazer el caminho, ah si!

Mas passei no supermercado para prover-me de comida, pois no Monte do Gozo estamos ilhados e tudo és mais caro. Dou todas as dicas pra quem quiser vir acá, viu Raul! Entonces comprei ahora: sucos de pina com uva (0,49), brioches (0,49 saco com 10), água (0,19 1,5L), batatas fritas (0,50), nectarinas (0,86 duas grandes) e bananas (0,70 quatro grandes). Sao 21:00 e tentei ligar pro Brasil mas nao sei como hacer para "lhamadas a cobrar revertido". Ninguna gente sube mi informar de esso, pero tudos bien que tentaran! Estoy contenta. Santiago é bien diferente de tudo que vi e la musica de ca me encanta. Voy voltar com alguns disquitos a mas. Amanhana haverá una feira aqui e jo viengo no primeiro autobus, às 10:00 da manana. Pienso em ficar aqui mais três ou quatro noches.

Estoy surpresa com la buena recepcion, ja que no parlo a lingua. Bon, mi pueblo, hasta la vista! Levo conchitas para todos! E só más un adiendo sobre la gastronomia: muchos mariscos, polvos e peixes enormes expostos nas vitrinas dos bares. E as roupas? Quantos lenços, quantos bordados, estoy louca acá! E las construciones? amanha farei el percurso da ciudade velha e despues o percurso extramuros de la cuidade velha. És muy simples. Levarei mi cajado e irei com os pies alados e lo corazòn amado!

Como queria que ustedes estivessem cá comigo para ver isto!
Biejos en todos usteds e perdones por mi supuesto castelhano! ARRIBA!

SoraYa com costelas quiebradas e pies ardentes!

quinta-feira, setembro 23, 2004

com o nariz na Galícia

Entre a pousada e a estação de comboios mudei a rota em pelo menos 80 kilômetros. É que saí de lá pensando em Braga e de Braga ir à serra de Gerês mas, no meio do caminho, havia um rapaz que me indicou Vila Nova de Cerveira, em pleno rio Minho e de cara para a vila de Bayona, Espanha.

Acabo de chegar e no trem uma senhora fez o favoire de caminhar comigo até a pousada. Ainda não tenho muitas informações, mas sei que o aluguel de um carro gira em torno de 5 euros e eu posso ir até La Guardia e parar numa outra cidadela um pouquito mais além que, dizem, és muy bela.

Já gostei daqui pois é uma cidade de artistas. Encontrei uma viola espanhola e estou coçando para colocá-la na minha sacola. O preço dum xale e mais duas cervejitas. Ah! E o almoço aqui inclui uma cerveja ou uma água. Nada mal.

Mas acabo de pôr os pés aqui. Quero vos contar de Ponte de Lima, onde estive ontem, a vila mais antiga de Portugal. Atravessando a ponte românica, entramos na aldeia de Arcozelo, e lá resolvi pedir uma informaçãozinha numa venda (é sempre bom pedir informações para ir entranhando nos lugares como quem abre a pança dum porco). O senhor que ali estava esticou pruma prosa e ainda me deu de presente sua história de vida. Ele atende pelo nome de João Malheiros, 84 anos, vivo que só! Tivemos realmente uma grande conversa e gravei tudo com o meu possante Sony safra 1991. Meu caro Malheiros habita uma aldeia um pouco mais acima e tem consigo algumas vinhas e uma espingarda para caçar coelhos e perdizes. Há 68 anos NAMORA dona Maria da Conceição, mulher que aos 18 anos, quando sáiu dum hospital, tinha que escolher com quem ia morar: os pais ou a tia. "Eu quero é ir pra casa do Malheiros". Grande Dona Maria!! Ele então me deu uma dica mais do que boa: "ó, m´nína, seguindo ali depois da ponte, vais encontraire uma adega. Gostas de ver isso? Pois eu tambáim!" Ainda perguntei novamente qual era o caminho a seguir para que não corresse o risco de me perder, e então João Malheiros me veio com a seguinte pérola: "Se for para se perdeire, perca-se comigo!"

E lá fui eu. De tempos em tempos cruzavam meu caminho camionetas carregadas de pipas com uvas. Cheguei na adega e vi todo o processo de feitura dos vinhos verdes da região. Esta época do ano produz cerca de 20 mil pipas, e cada pipa daquelas carrega 750kg de uva, que dá pra produzir 500 litros de vinho. Então, como o cume interessa, tive cuidado para não cair de boca na pipa!

Andréa, minha amiga, como lembrei de ti em Ponte de Lima! Tem um quê de Rio Preto, dada as devidas diferenças: este situa-se no Alto Minho. Aliás, não sabia que ia enveredar tanto por essa região.

O tempo vai esgotar.

Beijos!
Soraya

terça-feira, setembro 21, 2004

Entre mouros e lavradores

Numa cidade gótica a gente sente as aproximações pelos ecos. Viana é bastante acolhedora e a vinda pra cá é uma leveza só: passamos pelos vinhedos e esta é a melhor época para conhecê-los: estão carregados de uvas. Além disso, é um entra e sai de portugueses vindos dessas quintas do interior (rostos cheios de manchas vermelhas, mãos grossas e olhos bem marcados) que só vendo. Passei por Barcelos e cheguei aqui logo pela manhã, deixando as malas no albergue para partir lá pro alto de Santa Luzia. Almocei chouriços e rojões com vinho verde da região. Tudo junto foi mais barato do que um único prato nos restaurantes dos arredores da praça de Viana.

Antes de chegar no cume do "escadório", uma observação sobre os albergues: são todos ótimos, limpos, atendimento bacana, direto, simpático. Este de Viana do Castelo tem uma varandinha no quarto de frente pro rio Lima e uma praia logo ao lado. Raul, a marina também é em bem frente. Esta cidade é pequena e resolvi pedir informação para tudo, só pra ver como se sairiam os vianenses. É impressionante: entrei numa farmácia e perguntei como poderia ir lá pro alto do monte. O farmacêutico saiu de trás do balcão, saiu da farmácia, caminhou comigo até a Praça da República, botou um pé num dos degraus do chafariz da praça, segurou meu braço e apontou o caminho. Um outro, cuja demanda foi feita dentro de um café, fez o mesmo: saiu comigo pelas ruas até encontrarmos um lugar onde pudéssemos ver a Basílica lá no alto. Parece que o povo aqui não tem pressa nem reservas. E nas ruas já se ouve o espanhol. Na volta do cume também houve uma cena curiosa: um senhor saiu do seu antiquário galego e gritou pra mim: "Boa tarde, moça!". Claro, me detive prum dedo de prosa. Digamos que o senhor animou-se um pouco com a nossa super-excitante conversa, caracterizada por perguntas e informações, e logo arrumei um afazeire pra me desvencilhar de suas unhas negras de graxa e convites para um café.

Apesar do rio, a cidade aqui já é mais árida. Chama-se a região de Alto Minho, e há muitas casas medievais pequeninas, arcos góticos e não por acaso encontrei aqui a Casa do Cunha, filho de um defensor de.... PERNAMBUCO !!! E dos Lunas, família de um amigo querido e especial lá de Recife. Êta mundo! O sol que estoura no branco das casas e no ocre das pedras é um belo fundo pra essas almas que cruzam vielas e arcos vestidas de preto. Não há quase árvores e já não ouço mais as gaivotas e nem sinto a umidade das casas tortas e escuras do Douro.

Mas, prosseguindo, finalmente peguei um autocarro e subi finalmente para Santa Luzia. Atrás da Basílica há um sítio arqueológico chamado Citânia de Santa Luzia. Estavam fazendo escavações lá e, óbvio, fui ver como se organizavam espacialmente os moradores duma cidade romana de I antes de Cristo. As casas eram redondas, podemos dizer que do tamanho de uma grande jacuzzi, e ao redor de um grupo destas haviam muros dentro dos quais ficavam as quadras. Andei ali pensando como seria o semblante daqueles homens: rudes? abestalhados? alegres? desconfiados? gentis? não sei...tentei mudar o meu pra me sentir antiga andando sozinha por aquelas pedras. Outro dia descobri minha verdadeira idade: 1847 ou 1848 anos, não me lembro bem, já faz muito tempo.

Na volta, desci pelo escadório - e haja joelho! O visual é bem bonito, lembra a descida do Parque da Cidade. E cheio de cruzes no caminho. Viana já é um dos caminhos de Santiago de Compostela. No final do tal "escadório pra caralho", há uma inscrição na pedra que diz: "Meu Deus, ajudai-me a subir". Bingo! Mais uma dica pra desvendar a alma galega. Não importa o tipo nem o tamanho do sofrimento, desde que se evoque Deus a portugália guenta o tranco! Lá em Coimbra meu mestre me deu uma breve canja de fado e eu pude gravar a dor da Amália que baixou nele.

Falando em Coimbra, só mais um adendo: a biblioteca joanina, da universidade, guarda um livro de ouro!!! Pessoal, vocês sabem o que isso simboliza? Se não sabem, podem ao menos imaginar. Livro de ouro só um lê. É o símbolo mais emblemático do conhecimento acadêmico. Não à toa, em Coimbra todas as pixações de rua referem-se à vida intelecutal que há encerrada nesses muros: "não há vida inteligente na universidade", e no pedestal da estátua de Dom Diniz, fundador da univ. de Coimbra, um dizer: "é proibido pensar". Ótimo!

Já no Porto, as pixações dizem: "a polícia é um pesadelo" e "obedecer é morrer". Gosto realmente do Porto!

Mas avante nosotros! Acho que amanhã vou pegar o trem pra Vigo, saltar em Redondelas e tomar outro pra Santiago de Compostela. Lá vai ser meu último pouso antes de voltar pra Lisboa, com parada no Porto pra pegar o vinho da tchurma. Ainda não cheguei nem à metade dos meus tostões e, portanto, posso passar pelo menos uma noite por ali.

No mais, minha gente, caminhos não há: os pés na grama é que os inventarão!
até breve,
beijos
soraya

segunda-feira, setembro 20, 2004

Ao Norte!

Pessoal,

Amanhã vou seguir viagem. Sinto muito deixar o Porto. Gostaria de conhecer melhor essa cidade, mas a verdade é que já não ando tão livremente por aqui. Hoje estive num alfarrabista (vulgo: sebo) incrível. Ambiente pequeno, silencioso e sonoridade Schoenberg. Fueda! Ali, encontrei uns livros antigos sobre o Douro e um deles, chamado "A minha pátria", trazia pequenos contos sobre cada lugar de Portugal. Sobre o Douro, o autor dizia que a fertilidade e as águas faziam desses homens mais alegres e o calor, mais indolentes. Há algo aqui diferente, como vos disse na última mensagem. Numa outra livraria dessas seculares, encontrei um escritor que comparava Oporto à Catalunha, especialmente à Barcelona, não tanto pela arquitetura, mas pela alma. Ainda assim ele carregava Oporto de mais loas.

Não sei...esse lugar me intrigou. Nesse sentimento vem embutido a atração, mas o vinho do Porto me atrai, não me intriga. O lugar sim. Talvez tenha a ver com essa minha característica de apreciar uma caminhada pelo fio da navalha. Pois aqui também há lugares mais solares.

Hoje, por exemplo, fui pra foz do Douro de bonde (elétrico número 1) e lá entrei num boteco desses típicos de áreas de pesca. Chama-se A Palmeira, e (veja só, Paulinho!) ali bebe-se vinho verde "na pressão", tirado por uma torre dessas de chope (aqui a Sagres é a nossa Brahma). Na verdade, não só ali, mas em vários pontos desse país bebe-se vinho "na pressão". Em Coimbra tambaim. O cara nem cobrou as duas taças que bebi (0,70 cada!!!), mas só os bolinhos de bacalhau (0,60) e a água, tudo no balcão, rodeada de portugueses barrigudos e bigodudos. Só homem, um típico pé sujo tripeiro! O dono, José esqueci o resto, morou em CAXIAS e ontem comeu uma picanha com pagode na casa de um amigo. Essa coisa das migrações dão o maior colorido nos lugares.

Voltando dessa parte da cidade (a mais solar, mais "salitrada"), fui direto pra Vila Nova de Gaia beber uns vinhos e comer alguma coisa. A desvantagem de Gaia é estar de cara pro Porto. Ninguém fala muito dela mas ela é igual à sua vizinha, só que menor. Procurem histórias na internet. Só vos digo que essa mistura de casas medievais onde hoje funcionam associações de velhinhas, adegas, puteiros, livreiros, pensões, ferragens, gráficas e residências coalhadas de varais e mulheres berrantes me atordoa bastante.

SEM CONTAR COM AS GAIVOTAS!!! Sinto a todo o momento que estou sendo coadjuvante d´Os Pássaros, do Hitchcock. Elas têm um grito lancinante, de dia e de noite, aliás durante toda a noite. Agora mesmo, andando da Estação de São Bento pra cá, olhei pro céu e lá estava uma revoada branca contrastando com as estrelas e o negrume da noite. A lua nessas cidades portuguesas ficam na altura dos nossos olhos sobre essas colinas. A cada passo, uma lua, um varal e um grito ecoando ao longe. São elas, as gaivotas. Oporto sem gaivotas deve ser Barcelona. Se bem que Barcelona deve ser menos, muito menos visceral, muito menos intestina. E há moscas, principalmente nas ruas cinzas, de casas tortas, de entradas de gatos, de portas góticas, da olhares furtivos.

Mais tarde - ou quando voltar - dou-lhes informações sobre a telefonia e o sistema de transportes lusitanos. Uma verdadeira loucura. Por exemplo: para se ligar pro Brasil deve-se comprar um cartão específico pro país. Ali você tem um código geral de uns dez algarismos, mais uma senha com uns nove algarismos, e depois se disca o código do país, o da cidade e o da casa. No fim, você ouve que não dá pra completar a ligação. Pedi ajuda pra mais duas pessoas: nada feito. Dinheiro de volta. E pra ligar à cobrar, só de Lisboa. Daqui a operadora diz que em todo Portugal é a mesma coisa: deve-se discar 179, e pagar a ligação. Mas ora: de Lisboa não +e assim! As informações são uma tortura. Começa-se pela negativa. Por exemplo: "Senhor, para ir ao Mal Cozinhado, como faço?". Resposta: "estás vendo aquele monumento ali? Não é por ali..." e assim vai. Lá em Coimbra, o Mello foi fazer um teste comigo e o senhor respondeu: "descendo aquela rua, vais encontraire uma rua. Não entre nela, siga em frente. Lá adiante haverá uma pequenita travessa, onde ao fundo há uma fonte muito bonita, com ferros do Teixeira Lopes, você vai logo ver, ela está iluminada à noite. Não é lá." ORA, POIS!!!!!!!!

E ontem eu perguntei por um telefone público, o cara me disse: "depois do túnel tem um, mas não está funcionando!". ORA POIS!!!!!!!

Preciso desligar. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
minha guelda, não se preocupe. Estou num dos meus lugares. Aliás, acho que me apaixonei pelo ladraozinho. Uma ameaça e um carinho basta pra derreter meu coraçãozinho. Amor bandido, já ouviu falar disso? Tenho a faca e o queijo na mão: em frente à pensão, reune-se a "máfia", como disse a dona do Vulcão. Bizarro.

Viva Oporto !
Besos e à Galiza!

Soraya de Gaia

domingo, setembro 19, 2004

Na estiva

Pessoal, cheguei hoje ao Porto com o peito cheio de expectativas. Peguei o trem cedo (7,50 só) com Caterine e Patrícia. Sobre Coimbra conto num próximo mail, pois o Porto é, digamos, uma cidade densa, lúgubre, húmida, assustadora, sinistra, enfim, a síntese perfeita daquilo que me arrebata.

Parei num café em frente à estação Campanha, onde chegamos, e pedi pro Antônio Gomes uma informação: onde eu poderia encontrar um pouso barato e no meio da Ribeira. Resposta: "ó, minina: na Praça da Batalha você tem lá pensões baratinhas, de 10 euros". Lembrei-me que certa feita, na Glória, vi um casal de gringo saindo de mochila de uma "pensão para solteiros" e pensei: "esses gringos ficam em qualquer lugar". Já intuia que faria o mesmo!

Partimos pra lá e, eu prum lado, Patrícia pro outro, Caterine no café. Voltamos com duas pesquisas de preços parecidos, e optamos pela Pensão Mondariz, ao lado de um pequeno bordel e em frente ao Bar Vulcão, cujo garçon é de Goa, a dona é cigana e o cozinheiro....brasileiro de Pirinópolis! Comemos ali um bacalhau à bráz por 3,50 com jarra de vinho verde à 2,50! Deu 5,00 pra cada!!! Caminhamos depois, atravessamos a ponte pra Vila Nova de Gaia deitar na grama vendo o porto do outro lado do Douro. É impressionante este lugar, acreditem em mim. Em Gaia estão todas as casas de vinho e os barcos cheios de barris. Mas é do outro lado, no Porto, onde eu andei a bebeire minhas primeiras doses gratuitas. Bebi um branco que vou lhes contar...

Mas antes, Caterine partiu de volta pra Coimbra e Patrícia foi descansar. Eu? Eu resolvi "cair dentro" dessa cidade visceral. Aqui no Porto até o canto das gaivotas evoca algo ainda obscuro pra mim. Tudo parece carregar uma densidade, um peso, c´est très lourd ce ville. Parecia que eu ia me esquecendo que seu nome é Porto, afinal de contas. Mas estou a 100 km da Espanha e a 71 de Viana do Castelo, e sabia que chegando aqui no Norte eu ia começar a sentir essa alma cigana, essa idade celta na veia. Aliás, quase literalmente, pois aqui parece que a droga dos becos é a heroína.

Nessa minha caminhada solo, voltei pra beira da Ribeira tomando um funicular(glossário no fim, ou talvez eu monte mais um concurso mundial de bom português). Entrei numa quitanda pruma água e ao lado havia uma cave do Porto Cruz. Entrei e provei: o branco e o tinto. O sabor, pra mim, é indescritível. Não sou expert, mas sei o que é bom nesse quesito. Caminhei mais um pouco pensando na garrafa que vou levar pra minha casa e pra casa dos meus genitores, até me deparar com mais uma cave, já mais acima, em frente à um mosteiro. Nessa cave, uma senhora meio nórdica me deu uma aula de vinho do Porto. Gravei. E bebi um de safra especial: 1977. Reservei ali um branco pro meu lóli e pra minha guélds, ainda pensando: "pô, vou subir mais pela linha do comboio carregando garrafas... como se já não bastassem as jóias de Feira da Ladra...". Ainda estava pensando em economizar coluna e 12,50, sou uma miserável!!!

Tanto pensei que acabei enveredando numa miríade de becos escuros. Aqui as construções são escuras, as mulheres e os homens tem olhares penetrantes, muitos andam de preto, os olhos são marcantes, as falas são exuberantes, gritam-se das janelas quando se deve gritar, não há aquela politesse do sul, de Lisboa. O que me parece ainda mais sedutor. Mas fui adentrando por esses caminhos, pensando: "Soraya, você não é daqui, você não sabe onde estás indo". Engraçado, pela primeira vez senti isso num lugar, seja viajando ou mesmo caminhando pelos sítios obscuros do Rio. Tanto que, subindo uma escada, liguei o gravador pra comentar o cheiro do Porto, o grito constante das gaivotas, a luz da cidade, a imponência das pontes sobre o rio, o desenho dos barcos cheios de barris, o jeito penetrante das pessoas...não à toa o vinho do Porto é único. Mas não tenho o costume de gravar minhas impressões. E assim o fiz. No final dessa escadaria, cheguei ao pátio da Sé procurando um telefone. Ainda fiz uma foto. Estava a própria turista: câmera e gravador. Estava, em verdade, a própria chapeuzinho vermelho.

Encostou em mim, então, um rapaz bonito, cuja presença eu percebi um minuto antes, enquanto fotografava. Tenho cá a impressão que eu o arrastei comigo quando passei nesse labirinto. Ele chegou até mim e perguntou: "és espanhola?" - não, "est française?" - não. "italiene?" - não, mas você deseja alguma informação? Resolvi perguntar olhando bem nos seus olhos, pois ele parecia um pouco estranho. "És brasileira?" E aí sacou um canivete: "me dá cinco euros senão...", prefiro nem comentar. Eu só tinha uma nota de dez, e ainda assim pedi pra ele pra irmos trocar a nota, cinco pra mim e cinco pra ele. Ele me fez um carinho e disse: "não, linda, me desculpe, eu não posso ir trocá-lo". Eu ainda insisti olhando bem no olho dele e ele, quase comovido, me disse que sabia que me faria falta, mas ele precisava de dinheiro por questão de sobrevivência. Entendi tudo: o cara era viciado e dessas bandas que sei, não consegui ainda captar bem como nos perscruta. Subi até a polícia mas não adiantaria mais nada.

O Porto, meus amigos, não é aquele jardim das ninfas que é Coimbra, cidade fácil, cidade de estudantes, cidade solar. Aqui é cidade pra gente grande, pra gente disposta a ser do mundo. Aqui é o Porto.

Vou tentar resumir isso aqui com fotografias, mas talvez tenha conseguido com uma foto que fiz hoje à tarde, das pernas de um cidadão estendido num deck ao lado da monumental ponte que parece ser também de Eiffel, e de seu amigo, que era amigo de Souto Maior e conhece também bem o Brasil, mas por outras vias. Duas figuras saídas do La Dolce Vita, tanto pela roupa de um quanto pelo despojamento do outro. E cada frase terminava com um "ok?", e uma risada de quem já viu o mundo e ainda quer mais. Eu vos digo: o Porto é sedutor, o Porto é uma medusa.

Vou agora dar um pulo na minha pequeníssima casa de pasto Vulcão. Lá fecha à meia-noite e é de cara pra minha pensão. Só pra vocês terem idéia da ambiência: centenas de videiras de plástico penduradas no teto, e as uvas são as luminárias. As paredes são de pedra, as cadeiras de madeira rústica e tudo isso num espaço de uns 30 metros quadrados, mas retangular. Hoje cedo, quando parei na porta, a dona, lá do fundo, atrás do balcão, fez um sinal para eu ir até ela. Cabelão preto preto, roupa preta com rosas vermelhas, somente me falou: "diga". Poderosa. E com um garçon de Goa e um cozinheiro de Goiás não é pra menos.

Bueno...
Andréa, fiquei tão contente de te ver por aqui...! Paulo Thiago, às vezes ensandeço pensando que você estaria enlouquecido com essa viagem. Mãe e Pai, eu queria muito trazer vocês um dia, mas pra conhecer entranhas comigo. Raul, você tá de bobeira!!! Venha pra Portugal, principalmente indo rumo à Galícia. Peço que liguem pra Natália e digam que está tudo bem. Paty, digo novamente: bom saber que estás aí. E Bianca, quando eu era pequena ficava sempre doida pra entrar num avião com você, mas como não dava esperava com a maior excitação a sua volta pra ver se algo mudava. Confesso agora: tinha a maior desconfiança de que a cada viagem você voltaria um pouco diferente, e aí assistia (esse é o verbo) as tuas histórias e viajava muito contigo.

Vocês já imaginaram o que a internet proporciona a um viajante? Em qualquer canto do mundo, distante de tudo o que nos é familiar, encontramos um momento pra nos imergirmos no nosso mundo íntimo, que é pensar em vocês. O importante é fazer em cada lugar, seja em qualquer lugar, um lugar nosso, nem que seja por um minuto. Esse é o combustível. E isso aprendi com aquele português que encontrei no astral, nos livros e nos Jerônimos.

O som aqui nesse super cyber está bacana. E já ia me esquecendo dessa última: ontem assisti, no Jardim das Sereias, atrás do meu albergue, ao final do desfile dos grupos de gaitas de fole portuguesas de Coimbra. Depois da quarta eu pensei que não conseguiria mais dormir! E a fomação dos grupos é engraçadíssima: um gaiteiro, uma zabumba e uma espécie de repinique. Tá gravado. Só mais uma observação à respeito do público e do espaço público português: as pessoas vivem muito na rua no Centro e no Norte do país. Em Cascais também, mas pras bandas de cá é exuberante, é fantástico. Muitos velhos do lado de fora, desenfurnados. Isso é fundamental pra vida dos lugares, mostra que há vida sempre. E nos shows, todos atentos ao espetáculo. Isso me agrada, não tem muito uma alegria exibida, mas tem uma alegria de estar ali, de ver, de participar.

Bom, gente, prometo ser mais suscinta e vou selecionar melhor os temas. Mas é que houve um acúmulo, minha cabeça com o Porto está a mil e o Vulcão me espera.

Deixo aqui beijos, muitos beijos pra vocês, e juro que no próximo porto branco fresquinho a sorver pensarei em cada um de vocês, ok?

Soraya

Na estiva

Pessoal, cheguei hoje ao Porto com o peito cheio de expectativas. Peguei o trem cedo (7,50 só) com Caterine e Patrícia. Sobre Coimbra conto num próximo mail, pois o Porto é, digamos, uma cidade densa, lúgubre, húmida, assustadora, sinistra, enfim, a síntese perfeita daquilo que me arrebata.

Parei num café em frente à estação Campanha, onde chegamos, e pedi pro Antônio Gomes uma informação: onde eu poderia encontrar um pouso barato e no meio da Ribeira. Resposta: "ó, minina: na Praça da Batalha você tem lá pensões baratinhas, de 10 euros". Lembrei-me que certa feita, na Glória, vi um casal de gringo saindo de mochila de uma "pensão para solteiros" e pensei: "esses gringos ficam em qualquer lugar". Já intuia que faria o mesmo!

Partimos pra lá e, eu prum lado, Patrícia pro outro, Caterine no café. Voltamos com duas pesquisas de preços parecidos, e optamos pela Pensão Mondariz, ao lado de um pequeno bordel e em frente ao Bar Vulcão, cujo garçon é de Goa, a dona é cigana e o cozinheiro....brasileiro de Pirinópolis! Comemos ali um bacalhau à bráz por 3,50 com jarra de vinho verde à 2,50! Deu 5,00 pra cada!!! Caminhamos depois, atravessamos a ponte pra Vila Nova de Gaia deitar na grama vendo o porto do outro lado do Douro. É impressionante este lugar, acreditem em mim. Em Gaia estão todas as casas de vinho e os barcos cheios de barris. Mas é do outro lado, no Porto, onde eu andei a bebeire minhas primeiras doses gratuitas. Bebi um branco que vou lhes contar...

Mas antes, Caterine partiu de volta pra Coimbra e Patrícia foi descansar. Eu? Eu resolvi "cair dentro" dessa cidade visceral. Aqui no Porto até o canto das gaivotas evoca algo ainda obscuro pra mim. Tudo parece carregar uma densidade, um peso, c´est très lourd ce ville. Parecia que eu ia me esquecendo que seu nome é Porto, afinal de contas. Mas estou a 100 km da Espanha e a 71 de Viana do Castelo, e sabia que chegando aqui no Norte eu ia começar a sentir essa alma cigana, essa idade celta na veia. Aliás, quase literalmente, pois aqui parece que a droga dos becos é a heroína.

Nessa minha caminhada solo, voltei pra beira da Ribeira tomando um funicular(glossário no fim, ou talvez eu monte mais um concurso mundial de bom português). Entrei numa quitanda pruma água e ao lado havia uma cave do Porto Cruz. Entrei e provei: o branco e o tinto. O sabor, pra mim, é indescritível. Não sou expert, mas sei o que é bom nesse quesito. Caminhei mais um pouco pensando na garrafa que vou levar pra minha casa e pra casa dos meus genitores, até me deparar com mais uma cave, já mais acima, em frente à um mosteiro. Nessa cave, uma senhora meio nórdica me deu uma aula de vinho do Porto. Gravei. E bebi um de safra especial: 1977. Reservei ali um branco pro meu lóli e pra minha guélds, ainda pensando: "pô, vou subir mais pela linha do comboio carregando garrafas... como se já não bastassem as jóias de Feira da Ladra...". Ainda estava pensando em economizar coluna e 12,50, sou uma miserável!!!

Tanto pensei que acabei enveredando numa miríade de becos escuros. Aqui as construções são escuras, as mulheres e os homens tem olhares penetrantes, muitos andam de preto, os olhos são marcantes, as falas são exuberantes, gritam-se das janelas quando se deve gritar, não há aquela politesse do sul, de Lisboa. O que me parece ainda mais sedutor. Mas fui adentrando por esses caminhos, pensando: "Soraya, você não é daqui, você não sabe onde estás indo". Engraçado, pela primeira vez senti isso num lugar, seja viajando ou mesmo caminhando pelos sítios obscuros do Rio. Tanto que, subindo uma escada, liguei o gravador pra comentar o cheiro do Porto, o grito constante das gaivotas, a luz da cidade, a imponência das pontes sobre o rio, o desenho dos barcos cheios de barris, o jeito penetrante das pessoas...não à toa o vinho do Porto é único. Mas não tenho o costume de gravar minhas impressões. E assim o fiz. No final dessa escadaria, cheguei ao pátio da Sé procurando um telefone. Ainda fiz uma foto. Estava a própria turista: câmera e gravador. Estava, em verdade, a própria chapeuzinho vermelho.

Encostou em mim, então, um rapaz bonito, cuja presença eu percebi um minuto antes, enquanto fotografava. Tenho cá a impressão que eu o arrastei comigo quando passei nesse labirinto. Ele chegou até mim e perguntou: "és espanhola?" - não, "est française?" - não. "italiene?" - não, mas você deseja alguma informação? Resolvi perguntar olhando bem nos seus olhos, pois ele parecia um pouco estranho. "És brasileira?" E aí sacou um canivete: "me dá cinco euros senão...", prefiro nem comentar. Eu só tinha uma nota de dez, e ainda assim pedi pra ele pra irmos trocar a nota, cinco pra mim e cinco pra ele. Ele me fez um carinho e disse: "não, linda, me desculpe, eu não posso ir trocá-lo". Eu ainda insisti olhando bem no olho dele e ele, quase comovido, me disse que sabia que me faria falta, mas ele precisava de dinheiro por questão de sobrevivência. Entendi tudo: o cara era viciado e dessas bandas que sei, não consegui ainda captar bem como nos perscruta. Subi até a polícia mas não adiantaria mais nada.

O Porto, meus amigos, não é aquele jardim das ninfas que é Coimbra, cidade fácil, cidade de estudantes, cidade solar. Aqui é cidade pra gente grande, pra gente disposta a ser do mundo. Aqui é o Porto.

Vou tentar resumir isso aqui com fotografias, mas talvez tenha conseguido com uma foto que fiz hoje à tarde, das pernas de um cidadão estendido num deck ao lado da monumental ponte que parece ser também de Eiffel, e de seu amigo, que era amigo de Souto Maior e conhece também bem o Brasil, mas por outras vias. Duas figuras saídas do La Dolce Vita, tanto pela roupa de um quanto pelo despojamento do outro. E cada frase terminava com um "ok?", e uma risada de quem já viu o mundo e ainda quer mais. Eu vos digo: o Porto é sedutor, o Porto é uma medusa.

Vou agora dar um pulo na minha pequeníssima casa de pasto Vulcão. Lá fecha à meia-noite e é de cara pra minha pensão. Só pra vocês terem idéia da ambiência: centenas de videiras de plástico penduradas no teto, e as uvas são as luminárias. As paredes são de pedra, as cadeiras de madeira rústica e tudo isso num espaço de uns 30 metros quadrados, mas retangular. Hoje cedo, quando parei na porta, a dona, lá do fundo, atrás do balcão, fez um sinal para eu ir até ela. Cabelão preto preto, roupa preta com rosas vermelhas, somente me falou: "diga". Poderosa. E com um garçon de Goa e um cozinheiro de Goiás não é pra menos.

Bueno...
Andréa, fiquei tão contente de te ver por aqui...! Paulo Thiago, às vezes ensandeço pensando que você estaria enlouquecido com essa viagem. Mãe e Pai, eu queria muito trazer vocês um dia, mas pra conhecer entranhas comigo. Raul, você tá de bobeira!!! Venha pra Portugal, principalmente indo rumo à Galícia. Peço que liguem pra Natália e digam que está tudo bem. Paty, digo novamente: bom saber que estás aí. E Bianca, quando eu era pequena ficava sempre doida pra entrar num avião com você, mas como não dava esperava com a maior excitação a sua volta pra ver se algo mudava. Confesso agora: tinha a maior desconfiança de que a cada viagem você voltaria um pouco diferente, e aí assistia (esse é o verbo) as tuas histórias e viajava muito contigo.

Vocês já imaginaram o que a internet proporciona a um viajante? Em qualquer canto do mundo, distante de tudo o que nos é familiar, encontramos um momento pra nos imergirmos no nosso mundo íntimo, que é pensar em vocês. O importante é fazer em cada lugar, seja em qualquer lugar, um lugar nosso, nem que seja por um minuto. Esse é o combustível. E isso aprendi com aquele português que encontrei no astral, nos livros e nos Jerônimos.

O som aqui nesse super cyber está bacana. E já ia me esquecendo dessa última: ontem assisti, no Jardim das Sereias, atrás do meu albergue, ao final do desfile dos grupos de gaitas de fole portuguesas de Coimbra. Depois da quarta eu pensei que não conseguiria mais dormir! E a fomação dos grupos é engraçadíssima: um gaiteiro, uma zabumba e uma espécie de repinique. Tá gravado. Só mais uma observação à respeito do público e do espaço público português: as pessoas vivem muito na rua no Centro e no Norte do país. Em Cascais também, mas pras bandas de cá é exuberante, é fantástico. Muitos velhos do lado de fora, desenfurnados. Isso é fundamental pra vida dos lugares, mostra que há vida sempre. E nos shows, todos atentos ao espetáculo. Isso me agrada, não tem muito uma alegria exibida, mas tem uma alegria de estar ali, de ver, de participar.

Bom, gente, prometo ser mais suscinta e vou selecionar melhor os temas. Mas é que houve um acúmulo, minha cabeça com o Porto está a mil e o Vulcão me espera.

Deixo aqui beijos, muitos beijos pra vocês, e juro que no próximo porto branco fresquinho a sorver pensarei em cada um de vocês, ok?

Soraya



sexta-feira, setembro 17, 2004

Canto Livre I

Raul, gostei da sua verve poética: viver é impreciso, tens razão. Torçam aí que daqui a uma hora vou apresentar o meu trabalho. É sempre uma porteira, e eu preferiria muito mais ficar só por conta das caminhadas. Mas já encontrei pessoas e depois vamos aos copos!! Vinho verde, na pressão! E dia 19: Porto!
Paulinho, almoço aqui todos os dias por 1,80!!! Sensacional! E o albergue é supimpa: vista de um vale, banheiros limpíssimos e no quarto estou eu e mais três simpáticas. Sendo que esta noite cheguei tarde e me joguei em cima de uma que, no escuro, eu não vi: estava dormindo na cama que eu queria...e não falavamos a mesma língua. Senti só o susto horrorisado da mulher. hehehehe! Coisas da juventude...

Mãe: liga pra Natália e diga que estou mui bien, ok? Assim que cheguei aqui na estação comprei um bilhete com 11 passes de "autocarros", e até agora só usei um pra chegar à pousada. Dinheiro jogado fora: Coimbra é pequena, faz-se tudo à pied.
E aqui de onde escrevo, é DE GRAÇA!!!!

Ah! Hoje fui preparar a apresentação no claustro da Sé Velha. Rodeada de túmulos.... viver é mais do que impreciso: é esquisito!

Beijos pra vocês,
So

ps: 1 euro foi o preço de um casacão de lã que comprei na feira! muito bom viver nas europa.

terça-feira, setembro 14, 2004

A Odisséia

Meus estimados todos,

Há três dias sentei-me neste mesmo cybercafé pra escrever-lhes e eis que passado o tempo, o computador desligou automaticamente e eu perdi 45 minutos de escrita. Acabei ficando sem fôlego pra recontar tudo de novo.

Mas agora eis-me aqui, depois de um dia inteiro de caminhada. Antes de mais nada, é preciso dizer que muito do que já se passou vai sendo espremido diante dos momentos sucessores. Outra observação importante a fazeire é que pra mim a viagem se conta mesmo é num brilho nos olhos, num gesto, numa palavra, numa expressão, na atenção, enfim, a viagem conta sempre que o nosso taximetro que atende pelo nome de coração se assanha dentro do peito. Por isso, meus amigos, saibam que aqui vou contar um pouco da MINHA viagem, e não tanto daquela que vocês todos podem ver daí de suas poltronas, procurando "Lisboa" no Google.

Bom, ainda bem que eu trouxe o gravador. Já que não possuo uma TV, prezo muito o rádio e o instante decisivo da fotografia. Estou levando, pois, "fotos musicadas" pra contar. Já explico: é que nos lugares mais inusitados encontramos musicos de rua com instrumentos igualmente inusitados. Como um violonista tocando música medieval no pátio do Castelo de São Jorge (esse mesmo, lá de Capadócia, que sentou praça na cavalaria). Não havia ninguém além de nós e Natália, minha anfi-irmã, presente dos deuses. Na entrada do castelo, um senegalês cantava sua solidão; hoje, numa passagem subterrânea, Antônio, de Guiné, tocava flauta sozinho ali tirando proveito do eco do local; e na praça do Mosteiro dos Jerônimos, um portugês com cara de nórdico tocando um vibrafone sensacional! Sem contar com as guitarras portuguesas nos lugares mais turísticos e a fala dos putos, que é uma verdadeira delícia!

Acordei hoje e parti pra Feira da Ladra, lá no alto da Alfama. Sabia que aquela era a minha. Tinha lá de tudo um pouco: cartas, relógios, mapas, roupas, "loiças", livros, discos e todas aquelas velharias que eu amo. Velharias, diga~se de passagem, velhas mesmo: estolas de 200 anos, caixas de 300, livros de 90. Aliás, Alfama é o local das "lojas de velharias". Se eu me descuido, entro naquelas portinhas baixas no meio d´algum beco meio enviezado e passo o dia nelas. Mas na Feira me interessei deveras por uma peça e entabulei uma conversa com o vendedor. Um português gente finíssima chamado Jorge, grande conhecedor do Brasil (viajou tudo de ônibus, e agora vai voltar para sair de Goiás até a Amazônia) e uma boa fonte de dicas pro tipo de caminhos que me apetecem. Falou-me muito bem da feira da Praça XV, vejam só que maravilha! Conversamos horas ali e o cara me mandou pro norte de Portugal, e disse pr´eu encarar a fronteira com a Espanha, de preferência pra Vigo, ainda mais interessante do que Salamanca, na sua opinião, pois no norte cada lugarzinho é marcadamente distinto um do outro. Como não pode deixar de ser, acho que me lançcarei é numa daquelas pequenas aldeias de três ou quatro famílias, pra ouvir um pouco daquele português que não se fala mais em lugar nenhum.

Aliás, aquele português das aldeias que habitava o meu imaginário existe aos montes nessas ruas da cidade. Em Alfama há botequins como aqueles que existem na Glória: cheios de homens barrigudos e bigodudos debruçados no balcão - e falando o legítimo português de portugal! E cabaças, bacalhau, peixes, ginjas, chocos e outras coisas, cervejarias como as antigas da Gonçalves Dias, cafés em cada ruela, cafés pra todo lado, minha vesícula vai chiar! E muito século XIII pra deleite da minha flanerie.

Acabei conseguindo comprar uma jóia com o Jorge, e quem adivinhar o que é vai ser o feliz ganhador de uma bica! Uma chance: o estilo é joanino verdadeiro, ou seja, século XVI na cabeça! E pros meus queridos genitores, vai uma peça semelhante, só que em estilo pombalino, pós "terramoto" de 1755, mais bem conservado, novinho novinho: século XVIII.

Saí da Alfama descendo pelos becos e arcos, sempre pronta a me perder por ali. Num banco ao lado de uma bica, num cantinho cuja sonoridade era a das velhas lisboetas pendurando roupas nos varais em alguma daquelas vielas, sentei para comer o sanduiche de bacalhau que Natália fez pra mim. Digeri, fumei um cigarrito e voltei a botar os pés nas pedrinhas não sem antes constatar que o cheiro dessas ladeiras estreitas, terrível no passado pelo famoso lançamento dos baldes de merda diretamente da janela, hoje é agradavelmente ocupado pelo sabão das roupas que secam nos milhares de varais.

Dali, descendo, fui direto pra Belém. Aí começou meu passeio turísticão. Fui ao Monumento aos Descobridores (ou ao descobrimento, sei lá!) e na Torre de Belém (caminha-se baim de um ao outro, ainda mais carregando esses presentes adquiridos na Feira da Ladra...). aliás, se os portugueses tivessem que escolher um lugar para sair do Brasil, escolheriam a Praia das Flechas, pois conhecendo a grandiosidade dessa empreitada deles e vendo a humildade das marolas dali, ninguém podia imaginar que os caras cruzariam meio mundo e deixariam registro em tudo que é canto da África e nessa nossa vastidão da América do Sul.

E foi já meio em dúvida se eu encararia o Mosteiro dos Jerônimos, que pensei: "logo o mais exuberante de todos? força, soraya, cumpra o seu papel de estrangeira!". Entrei lá, em cima da hora de fechar. É um desbunde completo (embora a igreja de São Domingos, na rua do Coliseu, em Lisboa, seja inenarravel por ser assumidamente "sem plásticas". Sente-se ali verdadeiramente o peso dos anos e a história sem retoques). mas voltando aos Jerônimos, assim que saí da igreja e entrei no mosteiro, fui intuitivamente me dirigindo para o lado esquerdo e eis que me deparo, sem saber, uma plaquinha discreta onde se lia: "Para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui...." Fernando Pessoa. Era simplesmente o túmulo do meu amado, do meu poeta, do corpo onde viveu aquele que me faz chorar. E ali estava escrita a única poesia que eu sei de cor. Não andei mais: sentei-me ali, o jardim atrás de mim, e deixei chegar a emoção. Chorei.

18:30: foram lá me chamar. O Mosteiro já ia fechar. Sai dando minha missão aqui por cumprida. Logo eu, que ontem, no chiado, tirei aquelas fotos idiotas sentada ao lado da estátua do Pessoa em frente ao café "A Brasileira", frequentado pelo meu solitário imbatível. Foi mais um presente dos Deuses.

O outro presente tem sido a Natália. Como falei pra vocês, viajar, pra mim, é entrar num mundo que não se conhece. E não há entrada certa. Cabe à nós entendermos que somos no mais das vezes conduzidos nesses encontros. Isso eu aprendi num sonho e tem me feito muito bem. Sabia que estava entrando nesse mundo quando entrei no autocarro com natália e vítor no dia 10, assim que saimos do aeroporto. Vi que minha anfitriã tinha os olhos cheios de água e pensei: "ela é como dois de meus grandes amigos". E imprimiu. Tenho apreendido a alma portuguesa através da alma da Natália. Não são todos assim, mas o meu Portugal passa por ela. Sem dúvidas e graças à Zeus. Viajando assim e a gente dá uma de Ulisses: volta sabendo um pouco mais sobre nós mesmos. O resto é história.

Agora, creio eu, só mandarei sinais de fumaça lá de Trás os Montes.

antes disso, porém, deixo aqui um grande beijo pra vocês e aguardo respostas ao grande prêmio da bica!

Soraya

segunda-feira, setembro 06, 2004

Amália

No horizonte de aqui à três dias, a viagem. Não sairei da Torre de Belém, muito menos me lançarei ao mar em direção às Índias - embora eu consiga compreender que se há alguma semelhança entre eu e os tripulantes de Santa Maria, Pinta e Nina, esta é a fidelidade compulsória à dica de viagem zecapagodinesca do "deixa a vida me levar".

Se nossos colonizadores acertaram no erro, eu cá vou errando na certa. Ô pá! E começarei enfiando meus membros inferiores num bom escalda-pé pois sacramentei o compromisso de conhecer Lisboa inteira utilizando os mesmos. Só paro para apreciar o rio, a cidade e suas ruelas de um ou outro miradouro e sentar-me no "A Brasileira", no Chiado, para invocar Fernando Pessoa.

Já sinto de agora que minha Amália Rodrigues não escapa desta. Aflorar-me-ei às margens do Tejo, embargando a língua de Camões, a língua da "saudade".

Ai ai ai...!