Às compras hoje para levar comigo a alma da Galícia, me deparo com um loja já indicada por um hombre, onde só existem cd´s em oferta. Ensaquei um duplo de Alfredo Kraus, um de música celta do Milladoilo, O Barbeiro de Sevilla pela orquestra da Galícia, España em Música Clássica (com fuerza ao piano) e Negra Sombra, de Victor Pablo com Orquestra da Galícia. Tudo isto a cerca entre 1,90 e 4,90! Um pouco mais à frente eis que me surge una libraria onde havia espuesto un livro llamado Roteiros de Compostela, narrando toda a história galiciana através de seus roteiros mas o que me chamou a atençao (além do preço de 3,00) é que o livro começa em Portugal, passa por Coimbra, Porto, cidadelas do norte de Portugal hasta llegar em Santiago. É, minha gente, ustedes pueden imaginar como estoy me sentindo nessa grande odisséia. De quebra trago comigo também a alma barroca de Calderon de la Barca, por 1€ na mesma livraria. A loja do lado era um mercadito onde pude comprar minha água e "pequeno almoço" de amanha.
Hoje cedo estive em A Coruña, mas algo me dizia que lá nao ia encontrar muitas coisas para balançar meu coraçao. À parte o trajeto do trem, que é belíssimo, com os milharais e os horréos (aquelas pequenas casitas de pedra sobre pedestais, típicas da Galícia para armazenagem do milho) A Coruña tem uma arquitetura que mais parece um híbrido de Copacabana com Estoril: terrível. Hay playas e o Atlântico com o qual me deparei valeu a visita, pois surtiu como um brinde já nostálgico dessa viagem que vem chegando ao seu fim.
Peguei o autobus 5 em frente à Estaçao e fui direto à Torre de Hércules. Para os mais desavisados este é o farol mais antigo do mundo. Seu traço singular estar ainda no mesmo lugar, sobre a mesma cimentaçao e com a mesma funçao que tinha há 2000 anos atrás. Que tal? Tao logo entrei em sua base, me veio uma nota para as "vítimas do Palace II": seus alicerces de dois milênios foram construídos sobre "formigón", ou seja, pedras trabalhadas com um "mortero" de 30% de cal e 70% de areia granítica. Pai, você tem sempre razao. Vou poupar goela quando tu me provocares.
Antes de subir à torre aproveitei a vista do horizonte redondo que se descortinou à minha retina pelo Rincón del Viento, onde caminhei até a beira dos abismos para ver essa imensidao azul. Lá do fundo desse atlântico veio vindo um barquinho, e eu ali, só pegando a brisa fria que entrava pela porta do céu. Senti que o tempo passara quando o barquinho veio trazendo consigo o estardalhaço de centenas de gaivotas. Berravam à espanhola, quer dizer, à galiciana. Lá n´A Coruña vi outra pixaçao que anotei no caderninho:"Nao a educacion espanholista. Ensino educacional galego!". A Galícia no és España, é vero.
Ao descer da torre caminhei até pelo árido e kitsche calçadao até avistar as praias del Orzán e Riazor. Mas bonita mesmo é a pequena playa das Lapas, aos pés da torre, em meio ao despenhadeiro e seus jatobás. Peguei mais à frente o 11 quando soube da hora: eram 15:00 e eu queria me despedir de Santiago. Fui comer um misto quente em frente à estaçao e a dona do café era venezuelana. Victoria seu nome. Disse ter muita saudade da America Latina. Nao gostava da Coruña. Mas de Santiago: "todos se queden a enamorar-se de Santiago". Eu sinto muito mesmo saber que amanha pego o trem para Vigo. Aliás, decidi que nao vou dormir em Vigo, mas sim no Porto, para na quarta feira viajar de volta à Lisboa.
Ontem à noite ainda tive um encontro bem legal: Joglo, um paquistanês que mal falava o inglês e o espanhol e que ainda agora nem sei como conseguimos conversar. Joglo estava vendendo coisas lindas da Índia num galpao, e fiquei tentada numa cortina de voal toda bordada. Sua vizinha de tenda se chamava Amelia, e puxou uma longa conversa comigo, pois morou dez anos em "Floripa" e queria me mandar um postal daqui (???). Seu filho é um apaixonado pela bossa nova e quer voltar pro Brasil tentar a vida como músico, pois já fez inúmeros arranjos para Jobim e cia. Essa vida é uma miríade de coincidências mesmo! Lá n´A coruña hoje, dei de cara com a Playa Santo Amaro, vizinha da Playa da Lapa, à qual se chega pela rua San Carlos, que fica em frente ao Museu Militar, na beira do mar. ora ora....
Mas deixando novamente à coté a sessao nostalgia (yesterday all my troubles seems so far away...), tirei umas fotos do alvorecer no Monte do Gozo e ontem à noite resolvi, tardiamente, explorar mais meu ambiente de dormida. Subindo até o último pavilhao encontrei um policial com o qual tirei algumas dúvidas. Os últimos quatro pavilhoes chamaram minha atençao pois os corredores eram coalhados de botinas nas portas dos quartos. Estes últimos eram destinados aos peregrinos do camiño, que têm o direito de passar uma noite ali gratuitamente. Os pavilhoes debaixo, onde também estou, acolhem os nao peregrinos. Ai pensei: "depois de percorrerem centenas de quilometros os caras ainda tem que subir até fim deste caminho! Ou é para lhes dar maior sossego ou é porque os desgraçados nao pagam nada". Bem que poderia ser as duas coisas ao mesmo tempo, mas acho que a versao capitalista pesou mais nessa decisao. O Monte do Gozo foi construido em 1993 para a visita do Papa, pois tem lá um imenso auditorio ao ar livre para 40 mil pessoas. Sao 800 quartos ao todo (tem um hotel de luxo mais abaixo) e nos pavilhoes cada quarto acolhe até 8 pessoas. Na área comercial há um mini-mercado, uma lavanderia, uma cafeteria, um restaurante (caríssimo e ruim, segundo dizem), internet, bar automatico 24 horas e loja de souvenirs. É um grande complexo para se ganhar dinheiro com a peregrinaçao, mas nao deixa de ser divertido. Agora estou no quarto com duas alemas jovencitas, que ficam num abre e fecha de ziperes a noite toda, cochichando em alemao para nao me acordar e só por ser em alemao me tiram todo o sono. O nome Monte do Gozo é uma alusao à sentimento dos peregrinos que vêm do caminho francês (o mais longo) e que avistam as torres da catedral de Compostela tao logo chegam ali.
Como nao trouxe relógio, nao me sinto cansada pelas "horas nao dormidas", visto que nao sei quantas dormi e quantas "perdi". É tudo uma questao de convençao, uma imitaçao chula do espirito militar. Sem a disciplina pautada pelo signo maior da ideologia do trabalho (o relógio) somos muito mais fortes e intensos do que pensamos ser! E nunca "perco a hora" pois acordo quando os primeiros raios solares ainda frios adentram pelos buraquinhos da esteira branca da minha janela. E haja disposiçao, pois a vida de viajante se resume a viver simplesmente.
Ainda curtindo a brisa do Rincon del Viento, com os cornos pro Atlântico Norte, tive a oportunidade de sentir e de saber que nao importa onde estejamos, a vida vem conosco. A vida é única. A vida é íntima.
Pt, dá um beijao no meu Oc.
Hasta luego, mi pueblo!
soraya